domingo, 8 de maio de 2011

Rodoviária

Sentado. Esperando. Reclamando. Esperando. E aquele maldito banco da rodoviária massacrando minha bunda e minhas costas. Embora tenha 26 anos, minhas costas já doem, e não quero saber como ficará mais tarde…

O ônibus? Atrasado, como de costume, e um mesmo pensamento latejando as veias do meu cérebro, consumindo minhas entranhas e o pouco de amor que eu tinha naquele momento. Ah, cansaço, o que não fazes na mente e no corpo desses pobres sofredores?

Fiquei observando o caos daquele lugar enfumaçado pelos anseios de ir embora para casa e pelas maldições de irem para o trabalho, que enchiam o lugar com uma fumaça cinzenta, que a medida que o vento soprava, forçava-nos a inalá-la, e ruir com nossos pulmões tão cansado de tossir o cigarro.

Em meio ao burburinho incessante nos ouvidos, que sabia que tornaria a escutar enquanto estivesse dormindo, notei as pessoas do lugar. Em uma pastelaria, todos honravam serem animais da raça humana, e lutavam corpo a corpo para conseguir comprar um pastel, para encher-lhes de carboidratos, fazer a barriga parar de gritar por comida, que por sua vez,fazia eles gritarem pelos seus pastéis, virar energia pro corpo, e depois sair como merda pelo anus, naturalmente reconhecido como cu, onde pelo menos esse tipo de podridão pode sair. Era só mais um palco da natureza do homem.

Enquanto prestava atenção na selva que criamos para nos mesmos, um petiz puxou-me a manga da camisa, seus olhos eram grandes, fundos, castanhos, avermelhados e assustados, não era difícil ver nos olhos daquela criança o tanto que coisa que já tivera visto, tinha os cabelos encrioulados, tal qual os demais daquele lugar, e as unhas já grossas e partidas; seu corpo era magro, sua pele era escura como a íris dos olhos; de branco ele só tinha os dentes, que mais tarde se tornariam amarelos, e a sua inocência, que mais tarde seria roubada.

- Tio, pode me ajudar e comprar uma jujuba? É pra ajudar minha…

Interrompi-lhe antes que terminasse de contar seus males

- Quanto é?

Seus olhos se ascenderam, provavelmente se imaginou na selva da pastelaria, gritando por um pastel.

- 3 por 5.

Dei-lhe 10 reais, ele já ia me dando seis pacotes daquele doce colorido, mas impedi, queria que ficasse com os outro 5 reais.

Não agradeceu, apenas guardou o dinheiro olhou-me uma ultima vez, mas vi nos olhos daquele menino, toda a gratidão de uma criança. Saiu.

Acompanhei seus passos, e mais a frente, seu sorriso se ascendeu, começou a correr atrás de algo, reconheci um saco plástico sendo carregado pelas partículas de fumaça sopradas pelo vento, ele pulava e tentava alcançá-lo, ria enquanto aquele brinquedo forjado dançava como uma bailarina de corpo esbelto, ou como as estrelas no céu, e ele dançava junto, nos seus saltos em meio a multidão rezando suas preces, eu conseguia escutar a música, provavelmente algo de Tchaikovsky, que acompanhava os dois, esbarrava nas pessoas e essas insultavam-lhe, mas o volume de suas gargalhadas não o permitia escutar. Porém, o vento parou e o saco caiu no chão.

O menino percebeu que o saco plástico não era um balão.

E sua alegria, de pronto, acabou, assim que o vento parou de soprar.

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